Depressão, antidepressivo e sexo: o que fazer quando o remédio atrapalha
Escrito por: Waldemar Krueger (Cofundador da Lucy)
Revisado por: Lucimar Ghelfi — CRP 12/02552
Antidepressivos podem afetar libido, ereção e orgasmo — mas parar por conta própria é perigoso. Veja como conduzir essa conversa.
Depressão, antidepressivo e sexo: o que fazer quando o remédio atrapalha
Esse é um assunto que precisa de honestidade dos dois lados. Sim, antidepressivos podem afetar libido, ereção e orgasmo — e as taxas descritas na literatura são altas. E não, isso não significa que você deva parar de tomar. Depressão não tratada destrói a vida sexual e muito mais que isso. O caminho não é abandonar o tratamento: é levar a queixa ao psiquiatra, porque existem alternativas.
O que a literatura mostra
Um estudo prospectivo multicêntrico com 1.022 pacientes ambulatoriais, conduzido por um grupo de trabalho espanhol, avaliou a incidência de disfunção sexual associada a antidepressivos em pessoas com função sexual previamente normal. A conclusão: a incidência com inibidores seletivos de recaptação de serotonina e venlafaxina é alta, variando de 58% a 73% — bem maior que a observada com antidepressivos de outros mecanismos.
Uma revisão mais recente descreve o mesmo padrão por classe: cerca de 70% de disfunção sexual emergente do tratamento com essa classe, 40 a 45% com outras duas, e taxas semelhantes a placebo, abaixo de 10%, com medicamentos que não atuam na recaptação de serotonina.
O que isso quer dizer na prática: o efeito é frequente, é conhecido, e varia muito conforme o medicamento.
Como isso aparece
● Queda de libido — o mais comum
● Dificuldade de ereção
● Ejaculação retardada ou dificuldade de chegar ao orgasmo
● Redução da intensidade do orgasmo
Repare que a ejaculação retardada aparece nessa lista. É uma das causas mais frequentes desse quadro — e muitos homens não fazem a conexão com o remédio que começaram meses antes.
Por que não parar por conta própria
Aqui eu preciso ser bem direta, e falo como psicóloga que acompanha as consequências disso.
Interromper antidepressivo por conta própria pode causar sintomas de descontinuação e, principalmente, recaída do quadro que estava sendo tratado.
E depressão não tratada faz com a sua vida sexual tudo aquilo que você está tentando evitar: derruba libido, tira a energia, apaga o prazer nas coisas, atrapalha o sono e afasta você da sua parceira.
Trocar depressão controlada por ereção é um péssimo negócio — e desnecessário, porque existem alternativas.
Quem avalia, ajusta e troca é o psiquiatra que prescreveu. Não é o urologista, não é um blog, e não é o amigo que teve outra experiência.
▶ Assista: Não tome antidepressivos para controlar sua ejaculação por conta própria
Como conversar com o seu psiquiatra
O maior problema não é o efeito colateral. É o homem não contar.
Ele sente a queda, acha que é vergonhoso, não menciona na consulta, e um dia simplesmente para de tomar. O médico fica sem saber e sem chance de ajustar nada.
Uma forma que funciona: "Doutor, o tratamento está me ajudando, mas eu perdi bastante a libido e estou com dificuldade de chegar ao orgasmo. Isso está me incomodando muito. Existe alguma alternativa que mantenha o efeito e tenha menos esse impacto?"
Informações úteis para levar:
● Desde quando você toma e quando começou a mudança
● Qual aspecto está mais afetado: desejo, ereção ou orgasmo
● Se você ainda tem ereções ao acordar
● Se houve mudança de dose recentemente
O que mais pode estar acontecendo
Vale considerar que nem tudo é o remédio.
A própria depressão reduz libido e desempenho — às vezes o que o homem atribui ao medicamento é o quadro ainda não totalmente tratado.
E existe o caminho inverso, que eu vejo bastante: um homem que tinha um problema sexual, ficou deprimido por causa dele, e agora tem os dois. Nesses casos, tratar o quadro emocional frequentemente melhora o desempenho, não piora.
Por isso a avaliação precisa olhar o conjunto — e por isso a pior conduta possível é decidir sozinho.
Se você está nessa situação e não sabe como organizar essa conversa, eu explico numa aula ao vivo como identificar o que é o quê e por onde começar.
E me conta nos comentários: você já falou disso com o seu médico? Eu leio e respondo todos.
Perguntas frequentes
Todo antidepressivo atrapalha o sexo?+
Não. As taxas variam muito conforme o mecanismo do medicamento, e algumas classes têm taxas próximas de placebo. Por isso a conversa com o psiquiatra faz diferença real.
Posso parar por uns dias antes de transar?+
Não. Isso pode causar sintomas de descontinuação e desestabilizar o tratamento. Qualquer ajuste é decisão médica.
O efeito passa com o tempo?+
Em alguns casos há adaptação parcial, mas frequentemente persiste. Não conte com isso — leve ao médico.
Posso somar um remédio para ereção?+
Isso pode ser uma das estratégias, mas precisa ser avaliada pelo médico, considerando todos os medicamentos que você usa.
A depressão em si atrapalha o sexo?+
Muito. Queda de libido é um dos sintomas centrais. Às vezes o que se atribui ao remédio é o quadro ainda não controlado.
Referências
- 1.Montejo AL, Llorca G, Izquierdo JA, Rico-Villademoros F. Incidence of sexual dysfunction associated with antidepressant agents: a prospective multicenter study of 1022 outpatients. J Clin Psychiatry. 2001;62(Suppl 3):10-21. PubMed
- 2.Sexual dysfunction with major depressive disorder and antidepressant treatments: impact, assessment, and management. 2022. PubMed Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Nunca interrompa, reduza ou troque antidepressivos sem orientação do médico que prescreveu.
